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Fan Dance

Depois de meses de espera, chegou o momento de participar na famosa Fan Dance/Avalanche Series, um percurso adaptado do programa de seleção das SAS (Special Air Service) e SBS (Special Boat Service) Britânicas, considerado por estes um marco crucial para eventualmente singrar no programa de seleção das forças especiais.

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O percurso consiste numa corrida ao longo de 24 duros km, pelos dois lados de Pen Y Fan, a montanha mais alta dos Brecon Beacons.

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Apesar da opção clean fatigue (corrida de trail com carga mínima) ser mais atrativa, optei por me desafiar, escolhendo load bearing (marcha de Bergen com 15 kg + alimentação e hidratação necessárias ao percurso).

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Fiz o registo na sexta-feira, dia 6, véspera da competição. A mala foi pesada, acusava 19 kg. Entregaram-me o meu número de identificação, coincidência ou não, foi-me atribuído o número 1.

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O despertar de sábado foi marcado por um misto de ansiedade e excitação. Desejava testar-me, superar-me, mas o facto de não ter treinado como devia e estar ciente de todas as lesões que acontecem ao longo dos anos (muito por conta de abordagens imprudentes e descuidadas dos participantes) fazia um certo receio crescer em mim. O relógio marcava 7 horas da manhã quando sai de casa, faltava apenas uma hora.

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Chegado ao emblemático local do início/fim da corrida, vi a minha mala ser pesada novamente. Depois de um pequeno briefing onde nos informaram acerca de todos os check points passámos a cancela de acesso ao trilho. Reunimos em torno do líder da organização e fundador dos Avalanche Endurance Events, Ken Jones (ex soldado do regimento de paraquedistas, Comando dos Royal Marines e elemento de variados elementos das forças especiais britânicas), que contou uma piada para desbloquear o ambiente. Após esse momento de descontração, foi pedido a todos os participantes que exibissem o seu casaco mais quente – a segurança é um dos elementos fundamentais ao sucesso do evento – foram vários os elementos que foram repreendidos por apresentarem proteções insuficientes. Fomos ainda questionados acerca de kits de emergência, “sacos” de sobrevivência e mapas do percurso. Depois de confirmados todos os elementos essenciais para assegurar uma participação segura no evento, foi premido o gatilho da arma de sinalização e todos nos fizemos ao caminho.

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Rapidamente foi possível distinguir aqueles que estavam a correr por tempo ou apenas pela “sobrevivência” a este desafio, com o posicionamento que ia sendo assumido no pelotão com mais de 200 participantes.

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A primeira subida foi extremamente complicada, ou seguia em fila, respeitando o trilho, mantendo um passo relativamente lento, imposto pela grande densidade de participantes, ou tentava abrir caminho pelas laterais, arriscando a um início precoce do sentimento de exaustão naquele terreno de declive intenso. Ao fim de quase 1 km de subida, os participantes começaram a dispersar e pude impor o meu ritmo. Depois do desafio da inclinação e baixa temperatura, eis que se pôs no caminho uma nova adversidade, gelo. Os intensos nevões deixaram a sua marca ao longo da subida, tornando o caminho ainda mais tortuoso, obrigando a abandonar o trilho e caminhar em áreas cada vez mais inundadas de lama com a passagem de cada “fan dancer”, para evitar quedas.

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Depois de uma hora e dez de caminho, atinjo o primeiro cume, nesse momento começou a fazer-se sentir um vento intenso, estava próximo do pico de Pen Y Fan e da subsequente mítica “Jacobs’ Ladder”. Tirei a minha bergen pela primeira vez - primeiro erro que cometi - não me fiz acompanhar de um recipiente que me permitisse beber água sem ter de remover a “mochila”, facto que me obrigou a gerir os momentos em que bebia, para reduzir a fadiga.

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Fiz-me de novo ao caminho, apesar do vento forte, optei por tirar o casaco e seguir apenas com uma inner layer térmica e t-shirt, o suor escorria em bica apesar dos 2 graus que se faziam sentir naquele topo do terreno. Percorrendo uma nova subida repleta de lama solidificada pelas baixas temperaturas (que causou algumas quedas feias), atingi o ponto mais alto de todo o percurso – Pen Y Fan – o nevoeiro intenso limitava a visibilidade, mas ainda assim era possível vislumbrar uma paisagem majestosa.

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Iniciei depois a descida pela “Jacobs’ Ladder”, uma formação rochosa que nos obriga a descer com precaução extrema não só pela inclinação, mas por se encontrar junto uma espécie de corredor formado entre duas montanhas onde o vento sopra com grande intensidade. Pela primeira vez em todo o percurso temi pela minha segurança, a área de resistência que a minha Bergen oferecia, tornava difícil a manutenção do meu equilíbrio. Optei por usar as mãos, aumentando a minha área de contacto com o solo.

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À medida que me ia afastando das “escadas”, o terreno foi-se tornando mais fácil de percorrer, ainda que mantendo a tendência descendente no declive (agora menos intenso). O piso era irregular, alternando entre áreas pantanosas e rochosas, dificultando a progressão, principalmente com a carga.

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Passei depois a chamada “Windy Gap” (Abertura ventosa em português), mais um local onde o vento soprava lateralmente com grande força, criando dificuldades semelhantes às que descrevi acima. O terreno continuava a descer, tinha percorrido cerca de 10 km até então. Passei por um pequeno riacho que exigiu especial cuidado, mais uma vez por manter a acentuada inclinação, mas principalmente pelo piso, marcado pelas pedras instáveis que facilmente rolavam. Foi aqui que encontrei outro participante que se tinha magoado, um “low fatigue” que tinha torcido o tornozelo na sua corrida pelo riacho. Assegurei-me que estava “bem” e, tendo em conta que outro participante tinha chamado staff para o apoiar, segui rumo ao mid point.

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Ao atingir o checkpoint intermédio da corrida, com o relógio a contar perto de duas horas e meia de caminho, parei perto de três minutos para beber água novamente e comer mais uma das barras proteicas com que me fazia acompanhar. O staff encorajava todo os participantes a não parar e seguir caminho. Segui os seus conselhos e fiz-me de novo ao percurso.

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Na minha opinião, foi aqui que começou o verdadeiro pico do desafio. O percurso que fiz do Pen Y Fan em diante até aquele momento foi todo a descer, com mais ou menos inclinação, mas sempre a descer – tinha chegado o momento de fazer o inverso. Comecei a subir, o terreno com cada vez mais lama, por conta das centenas de pessoas que ali tinham passado, tornava a progressão cada vez mais lenta. Ao longo do percurso, o número de participantes que se sentiam exaustos ia aumentando. Um, talvez por desidratação, começou a apresentar alucinações, tendo começado a afastar-se dos trilhos, exigindo a ação do staff. Segui caminho - a irregularidade do terreno fez com que torcesse os tornozelos com frequência…não podia tirar os olhos do chão por um segundo que fosse. Foi então que atingi aquele que foi para mim o momento mais desesperante da prova, a subida rumo ao Pen Y Fan pela “Jacobs’ Ladder”. A cada dois passos, as minhas pernas queriam ceder, os meus tendões ficavam hirtos sem que os comandasse para tal. Para aumentar o meu desalento, o intenso nevoeiro impedia-me um campo de visão superior a meia dúzia de metros, não permitindo que conseguisse almejar o “final” desta minha luta. Respirei fundo e fui, lento, seguindo o conselho de um amigo participante -“um pé à frente do outro, só isso” - escadas acima. Ultrapassei muitos participantes que se deparavam com um combate tão ou mais intenso com os seus corpos e o seu cansaço. O meu cérebro só me dizia para largar a bergen, repousar, mas a fixei os meus olhos em cada degrau que queria alcançar. Entre gemidos e palavras de apoio de outros participantes, atingi novamente o cume.

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O vento intenso ali sentido fazia a minha temperatura baixar rapidamente, o que me obrigou a vestir de novo um casaco resistente a este elemento. Bebi água novamente, segui caminho. A cada passo, o impacto sentido nos meus joelhos era cada vez mais pesado. Atingi outra vez a área repleta de gelo e lama que encontrei no início da corrida e fui alertado por um elemento do staff para ter cuidado, aparentemente uma queda aparatosa naquela zona tinha causado mais lesões. Segui, lentamente, escorreguei várias vezes, apesar do rasto bem marcado das botas, mas consegui evitar que caísse. Continuei a descer, aproximando-me daquela que seria a última subida antes da meta. De rompante, ao subir a primeira pedra, os meus gémeos endureceram, e comecei a sentir o início de uma cãibra – bebi uma solução com alguns eletrólitos que trazia comigo, e continuei. Eis que atinjo o último ponto alto, já via o final, com a mítica cabine telefónica ao jeito britânico. Dou início à minha descida, tento correr um pouco, enquanto tento gerir todo o memento gerado pela carga que trazia comigo. Cada vez mais perto, finalmente, cruzo a meta. Com o tempo de 5 horas e 32 minutos, a Bergen que pesava 19 kg pesava agora 17.

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No final da corrida não houve troféu, não houve prémios glamorosos, apenas um aperto de mão sentido pelo líder da competição, que me entregou um selo exclusivo para pessoas que cruzem aquela meta e cumpram os requisitos exigidos.

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Mais que isso, o final da prova trouxe um sentimento de prazer e superação como nunca experimentei antes. Sempre fui uma pessoa ativa, com uma prática desportiva intensa, mas nunca me tinha proposto a um desafio desta dimensão.

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Encontrei em mim forças que desconhecia e uma vontade de lutar como nunca antes tinha sentido. Moldei a minha mente, lutei contra forças internas e externas, sem nunca desistir. Para mim, esta não foi apenas uma jornada de endurance intensa, esta prova foi, acima de tudo, uma caminhada de auto conhecimento que me trouxe ferramentas para enfrentar olhos nos olhos todos os desafios que esta vida ousar arremessar contra mim.

Marco Gonçalves | 2017



Quilómetros
24

nº de Dias
1

Dificuldade
8/10

estilo de aventura
trekking

Fim de semana de Sobrevivência