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Fim de semana de sobrevivência

Orientação por carta, dormir ao relento e comer insetos, bem vindo ao fim de semana de sobrevivência da OZxtreme

Assim que tive conhecimento do fim de semana de sobrevivência da OZxtreme (dia 19 de Agosto) fiz questão de alterar os meus planos para o resto do mês em função desta aventura. Entrei em contacto com o realizador do evento - o Osvaldo - que rapidamente se disponibilizou para me ir buscar ao terminal de Águeda (local de partida e sede da OZxtreme). Tenho que salientar que este senhor, com a sua energia e profissionalismo, fez com que a minha vontade de ir formigasse ainda mais.


Os dias que se passaram entre o contacto e o dia da partida foram de leitura, preparação psicológica e física. Recomendo-o vivamente a todos os que se pretendam 'perder' numa aventura, pois ter conhecimentos acerca de fauna e flora do sitio para onde se vai é crucial quando se trata de sobrevivência.


Foram longos os dias que decorreram até ao dia da partida para Águeda, parecia que se arrastavam propositadamente apenas para testarem a minha paciência e estado de ansiedade. Quando chegou o tão aguardado dia fiz o check ao conteúdo da mala que ia levar comigo "Faca, mini-kit de primeiros socorros, flint, mini-kit de sobrevivência (anzóis, linha, agulha, espelho, bússola, algodão), cantil, parca e saco-cama, adrenalina".


Como de esperado a tal "viagem infinita" até chegar a Águeda…Já vos contei o quão infinitas são estas viagens, não já? In-fi-ni-tas.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

Chegado ao destino, houve tempo para uma (ainda mais energizante) chávena de café entre apresentações: o Osvaldo, o Filipe, o Paulo dos The Dukes, e um grupo de mais sete aventureiros (André Ferreira, João Rocha, Marcelo Cruz, José Martins, Cristina Cavaco, Ramiro Leandro e Tânia Silva).

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

Com o cair da noite, aproximando-se as 21h (hora de inicio do evento), o local de encontro começava a ser polvilhado com as caras ansiosas dos participantes. Caras essas que a meu ver eram todas tão distintas. "O que poderemos ter todos tão em comum?", perguntei a mim próprio. "Fome de aventura e um ímpeto inexplicável para testarmos os nossos limites", respondeu uma vozinha lá no fundo. Sorri. "Passemos a coisas sérias" ouvi a voz de Osvaldo, interrompendo o meu monólogo. Cartas e bússolas na mão, dadas as primeiras coordenadas o Gang encheu-se de energia e começámos o que iria ser um longo e doloroso (mas brutal!) fim-de-semana.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

A primeira parte foi relativamente fácil pois a maioria dos membros era da zona o que facilitou o cumprimento do primeiro objetivo: encontrarmos a capela de São Macário. Mas a cada passo dado na direcção desse objetivo, a civilização ia desaparecendo, ficando para trás à medida que nos embrenhávamos mais e mais no vasto, denso, arrepiantemente silencioso eucaliptal. As estrelas observavam-nos do alto, cintilando a cada passo, o cheiro dos eucaliptos envolvia-nos e por momentos perdi a noção do tempo. Pé ante pé, parecia que a cada metro as estrelas brilhavam mais e mais, a ponto de abafarem por completo o néon artificial das cidades circundantes: o céu estava um espétaculo de pontos brilhantes sem que se conseguisse distinguir uma estrela da outra, e entrecortada por aquele espectáculo de luzes naturais estava ela: a capela de São Macário. Primeira etapa cumprida!
Estava na altura de recebermos mais instruções acerca do nosso próximo objetivo - o Casarão - e acreditem quando vos digo que a orientação nocturna é muito mais difícil que a diurna. Como diz o ditado popular "à noite todos os gatos são pardos", e não se deixem enganar por um céu límpido e estrelado pois até um experiente navegador se poderia desorientar nele. Nessas noites (des)confiem da vossa sombra, mas nunca do vosso Norte nem dos vossos companheiros.
Seguimos a passos largos para o nosso segundo objetivo. O eucaliptal adensava-se à nossa volta e as sombras lançadas pelos mesmos alongavam-se até nos taparem por completo o céu estrelado. Parámos uma e outra vez: atalhos sem saída, o frio, o mesmo ponto de referência uma e outra vez (não passámos já por aqui antes?), a humidade....a ponta de desespero....o cansaço...Após algumas paragens, em que tivemos de assegurar que não andaríamos ás voltas e que não voltaríamos a entrar por trilhos sem saída, acabámos por encontrar o Casarão.
Antes de continuar permitam-me que vos advirta: não subestimem este tipo de ambiente à noite. O Casarão foi um ponto de luz no mar de escuridão com cheiro a eucalipto. A moral voltou a faiscar à luz de uma pequena e controlada fogueira que fizemos para nos confortar.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

Embora já tenha alguma experiência neste âmbito, tenho de sublinhar que ao contrario do que se vê na televisão, acender um fogo com uma pedra de magnésio nem sempre é à primeira ou décima (por vezes milésima) tentativa, pode levar algum tempo e paciência para o acender.


Pouco tempo tivemos para saborear o calor da chama - já nos chamavam com as novas coordenadas e era altura de nos pormos a caminho de Alvarim ... e também de sairmos dos trilhos feitos. Sabíamos apenas que tínhamos de passar uma ponte. A ideia mais simples seria tirar o azimute e seguir rumo ao rio - todos de acordo, seguimos.


O frio apertava, o cansaço também. Eram 2:30 da manha (já?) e ainda tínhamos muito para percorrer até ao destino (aguenta!), mas o pior ainda estava para vir. Mantivemos bom ritmo, descemos um enorme e bastante acentuado declive até ao rio e ... a ponte? Onde estava a ponte do objetivo? Estávamos a 300m de distância e a passagem para cima estava barrada. O desespero e o cansaço pesavam agora bastante nos nossos rostos e até as malas pareciam mais pesadas. Tentámos encontrar uma outra solução.
Estão familiarizados com a expressão "pior a emenda que o soneto"? Pois é.
Decidimos recuar, subir o enorme declive que havíamos descido até ao rio, e procurar o caminho para a ponte. Subimos e descemos terreno durante horas, por vezes precisámos mesmo de usar corda e em rappel. Mas continuávamos sem sorte. Voltámos para trás e decidimos seguir até à ponte pela estrada. Pelo caminho vimos o jipe. "Devemos estar perto!". Cerca de 500 metros mais à frente estaria o nosso acampamento para a noite. Mas esses 500 metros bem que poderiam ter sido 5000. Não iria ser fácil, mas o apoio do grupo e a entreajuda foi essencial nesta ocasião. Motivarmo-nos e mantermo-nos juntos para poupar energia é imprescindível em qualquer situação de sobrevivência.
Com bastante esforço estávamos no objetivo final do dia: Falgoselhe.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

O "acampamento" - um misto silvas, eucaliptos e fetos, com o borbulhar do rio perto - parecia um verdadeiro hotel. Por esta altura estávamos perto das 6h da manhã e ás 8h tínhamos de estar a pé. Duas horas de sono era tudo o que nos restava de uma noite atribulada (era uma recompensa da qual, apesar de tudo, estávamos gratos).
Entre fetos e sacos cama, o sussurrar do rio acalmava o inchado dos pés e dos tornozelos e embalava-nos. Poucas horas fizeram uma grande diferença. O céu depressa clareava, os raios de sol aqueciam timidamente a pele, o cheiro a eucalipto era relaxante e o violento despertar foi completamente abafado pela serenidade do que nos rodeava. Sem muito tempo para apreciar a paisagem, e já com as malas as costas (cujo peso já parecia ter triplicado por esta altura), foi tempo de recebermos novas instruções e seguirmos para o nosso próximo objectivo.
Se achavam que as complicações acabavam por aqui desenganem-se? E porquê? Porque tínhamos que subir o monte por um lado para o descer pelo outro lado, e não havia hipótese de o contornar.
Uma subida íngreme por um caminho que parecia ter sido abandonado há já alguns anos a avaliar pelo tamanho da vegetação que nele crescera. O cansaço e a fatiga estavam a materializar-se em elementos do grupo, mas não era tempo para abrandar, não tínhamos esse privilegio - já tínhamos perdido muito tempo na noite anterior e descansar era um luxo ao qual não nos poderíamos dar. Com muito esforço, e sempre a puxar uns pelos outros, chegámos ao cume do monte. Os nossos canteiros estavam praticamente vazios, e a falta de água tornava-se o principal problema naquele momento. Mas era hora de começar a grande descida até ao ponto de encontro, sem paragens, e com os olhos postos na ponte - em 10 minutos finalizamos a descida.


O sitio era sem sombra de duvidas um pequeno lugar no céu - de tal modo bonito que por breves instantes todas as dores, fatiga, fome ou sede desapareceram, e deram lugar a sorrisos e a pequenos instantes de felicidade despreocupada. Aproveitei para tomar um pequeno banho e refrescar a cabeça, outros membros aproveitaram para procurar algo que pudesse aconchegar o estômago (mas pouco ou nada encontraram). Voltámos a ouvir a voz de Osvaldo a pedir que nos reuníssemos para que nos pudesse explicar detalhes acerca da construção de macas e imobilização de um ou mais membros partidos numa situação de emergência. Fizemos um pequenos mas consistente treino do que o Osvaldo nos havia ensinado e partimos para o nosso próximo e ultimo objetivo do dia: chegar ao cume da serra do Cabeço Santo.
Sabiam que esta é uma área muito propicia ao habitat da víbora cornuda, a única cobra venenosa em Portugal?
É.

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Encontrávamo-nos no ponto mais baixo e tínhamos de nos deslocar para o ponto mais alto...novamente. As reservas de água continuavam no mínimo, por isso não podíamos perder mais tempo. Era impressão minha ou as malas ganhavam peso com o passar das horas?
Com a bússola no mapa e com a rota feita, partimos para a ultima viagem do dia que se fez bem até aos últimos 500 metros - que eram a subir numa encosta extremamente íngreme e que nos iria tomar quase 2 horas de viagem. Permitam-me pintar um quadro geral da situação: as restantes reservas de energia estavam no limite, as nossas caras de desespero eram notórias, os tornozelos estavam inchados, o calor era insuportável, estávamos no pico do dia, e tínhamos apenas algumas silvas com amoras e medronheiros para encher o vazio que nos consumia o estômago. Por esta altura o fim do percurso parecia ser uma ilusão. Era difícil, estávamos cansados, com fome e com sede, e quando o pensamento de desistir já passava pela cabeça de alguns eis que ao longe enxergámos a carrinha da OZxtreme. O cansaço passava a cada passo dado em direção à meta, e lá, estava o Filipe à nossa espera. Enchemos os cantis, e pela primeira vez muitos de nós deu valor e importância à água.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

O dia estava completo e era altura de criar um abrigo e dar o dia por terminado - com lonas a fazer de teto e chão, folhagem a servir de isolador e sacos cama, montámos um verdadeiro palácio (modéstia à parte, fizemos um excelente trabalho de construção). Eram cerca das 19 horas e o cansaço tinha vencido a maioria do grupo, e graças a isso, essa foi garantidamente a maior noite de sono da minha vida - dormi mais de 10 horas.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

Com o passar da noite, o sol lá decidiu aparecer e ás 9h já estávamos a pé. Este era o ultimo dia. Os pés de alguns tinham-se transformado em autênticas bolhas de água, o cansaço e a fome haviam tomado conta de todos - estávamos de estômago vazio e o pouco que havia dentro das nossas barrigas já teria desaparecido.
Subitamente apercebemo-nos que um dos elementos estava desaparecido. Onde andaria a Cristina? Foi-nos dito que a Cristina tinha saído do campo sozinha e cabia-nos a missão de a encontrar...e depressa!
Foi-nos dada a localização de onde a tinham visto pela ultima vez, e o grupo rapidamente se pôs a caminho. Descer a encosta do Cabeço Santo foi muito mais rápido que subi-la, mas o peso dos outros dias tornava a descida dolorosa. Fomos rápidos a encontrar o membro em falta - ela estava caída e estava na hora de colocarmos em prática o que o Osvaldo nos havia ensinado
Construímos uma maca e transportámo-la encosta acima. Não preciso de mencionar o quão fisicamente excruciante foi, certo? Mas levámo-la sã e salva ao trilho. Também este desafio estava superado. Mas o fim-de-semana ainda nos reservava mais uma caminhada até à barragem de Belazaima, onde deveríamos esperar. E para isso bastava seguirmos pelo trilho abaixo. Assim fizemos.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

A meio do percurso deparámo-nos com uma laranjeira e uma fonte que rapidamente deu para ganhar aquela energia que faltava para terminar a grande viagem. De energia e hidratados restabelecidos, percorremos os últimos quilómetros em direção á barragem para aguardar que o jipe chegasse.

fim de semana de sobrevivencia da ozxtreme

O final aproximava-se e era quase palpável. As gargalhadas multiplicavam-se, estávamos felizes e sentiamo-nos realizados. Muitos descobriram potencialidades que desconheciam, outros pensavam já no próximo fim-de-semana de sobrevivência nível 2. Era altura de arrumar as malas e partir para Águeda.
Para trás, por entre os eucaliptos, ficavam memórias de uma aventura inesquecível e a saudade começava a instalar-se.


Carregámos as mochilas uns dos outros, contámos com o apoio de quem estava ao nosso lado, partilhámos água, comida e acima de tudo uma grande experiência. Fomos 8 desconhecidos que rapidamente se tornaram grandes amigos em tão pouco tempo.


Gostaram do nível 1? Esperem pelo nível 2! Eu cá já mal posso esperar!

Bruno Simões | 2014



Quilómetros
39

nº de Dias
3

Dificuldade
6/10

estilo de aventura
survival

Rota dos túneis