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Rota dos túneis

Que a rota dos túneis é conhecida por muitos, é um facto.
Que a tenham feito na companhia do Geogang, a conversa já é outra.

Esta velha linha, onde outrora passavam os comboios que ligavam Porto a Paris, está abandonada - desde 1985 que ali não passam comboios. O troço foi construído no final do século XIX, e compreende vinte túneis e dez pontes que constituem uma formidável obra de engenharia.

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O percurso por nós traçado foi de Pocinho a Barca d'Alva, e de Barca d'Alva a La Fregeneda (Espanha) - ao todo 45 kms de linha, 22 túneis e 16 pontes. Dois dias e uma noite dormida em Barca d'Alva num armazém semi-abandonado.

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Tudo começou com um telefonema e um convite do meu primo Renato, ao qual eu respondi com um entusiástico "vamos pois!".
Nem eu imaginava que esta aventura seria um autêntico teste às nossas survival skills. O tempo arrastava-se dolorosamente até à "hora D" , e quando finalmente chegou confesso que me preparei com muito pouco: uma corda, uma faca, um kit de primeiros socorros, um flint, e um cantil de água. Sem mais nada - nem uma tenda ou algo que me resguardasse - arranquei para Coimbra de autocarro.

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Já vos contei como estas viagens se estendem até à eternidade? E como que a cada quilómetro traçado o nervosismo e a ansiedade aumentam? A sede de aventura - desta aventura - nem toda a água do Mondego a mataria.

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Ao chegar à estação (por fim!) encontrei um elemento do Gang: o Rudolfo.
Entre cumprimentos rápidos, a apresentações foram feitas em viagem - já estava na altura de nos agruparmos e estávamos atrasados. Passámos por casa do Rudolfo para apanhar o que falta e depressa nos juntámos ao resto do grupo.
Chegados a Ceira de Coimbra, bebemos um café e encontrámo-nos com o resto do Gang: o Filipe, Pedro e o meu primo Renato. Mais cumprimentos rápidos e apresentações a fugir, e pusémo-nos a caminho do ponto de partida - Pocinho. Mais uma viagem longa.

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À medida que nos apressávamos para chegar ao local, contavam-se historias de espantar e invejar: entre perdidos em vales e florestas, a grandes travessias de mares e grutas, uma vida de acampamentos e aventuras. Subitamente ouve-se um "chegámos!". A electricidade que nos fervilhava no corpo era quase palpável "deve ser assim que as crianças de 6 anos se devem sentir quando chegam à Disney" pensei com um sorriso de orelha a orelha. Apressámo-nos a sair do jipe e enchi os pulmões daquele ar limpo. Estava frio, mas nós estávamos demasiado quentes e cheios de apetite para começar. Era hora de montar o ninho: sacos-cama amontoados em cima de uma malha et voilá - a barraca estava montada.

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Julgo que não é necessário mencionar que a noite foi mal dormida. A ânsia vencia o sono, e ao nascer do sol estávamos a pé e prontos para percorrer o caminho até ao primeiro ponto de paragem - Barca d'Alva. Tenho de salientar que a pedra britada (gravilha) de um caminho de ferro nunca assenta, por isso os 45 quilómetros (que até não são muito) afiguravam-se longos, penosos e dolorosos num terreno muito impróprio para pés de princesa. Mas até isso era facilmente abafado pela paisagem que nos roubava o oxigénio. O caminho de ferro estava completamente consumido pela natureza e isso deu-lhe um misto de beleza e respeito. À medida que os quilómetros nos passavam por baixo dos pés, encontrávamos provas em como a natureza reavia tudo o que lhe fora tirado em tempos: árvores cresciam no meio da linha, antigas paragens e casas rachadas completamente consumidas pela natureza, e raízes que atravessavam chão de cimento e que nos faziam refletir sobre a força da natureza.

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O mato era alto e denso, e ainda nos faltava um bom caminho até chegarmos a Barca d'Alva. O tempo estava a passar muito depressa e os quilómetros ainda eram tantos. Cada vez que víamos uma curva, gritávamos "é ali!" mas tantas vezes errámos até que finalmente vimos uma ponte, ao que alguém gritou "ali é Barca d'Alva!". Depressa se esboçou um sorriso e as linhas de cansaço das nossas caras esbateram-se por completo. Naquele instante esquecemos o cansaço, o inchaço dos pés, a baixa moral, e a chuva que havia começado a cair
Uns a coxear, outros com mais energia, chegamos a Barca d'Alva onde depressa encontrámos um lugar para passar a noite. O velho armazém parecia um verdadeiro Hotel de cinco estrelas e era hora de recuperar energias.

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As 7 horas de descanso pareceram 15 minutos - subitamente era dia novamente, e por mais que os ossos nos doessem tínhamos um percurso a terminar, não havia desculpas nem "só mais 5 minutos". Mais um dia em cima de um trilho terrível, e desta vez com pontes altas (entre 24 e 28 metros de altura) e extremamente degradadas que fariam com que muitos pensassem se não seria melhor voltar para trás e abandonar a ideia de ir até La Fregeneda. Para animar, a chuva havia voltado a cair. Mas entre os trovões, relâmpagos e a cortina de chuva, a paisagem incentivava-nos a continuar.

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As nossas pernas e braços pareciam pesar o dobro, tamanho era o cansaço que nos vergava as costas. Queríamos continuar, não havia volta a dar, não íamos voltar para trás agora. Estávamos tão perto! Algures durante o percurso deparámo-nos com um túnel extremamente escuro. Era imperioso atravessar este túnel para que chegássemos ao destino, mas havia algo nele que…. A meio da travessia notei que o terreno tinha mudado. Comentei com o meu primo que o chão se afigurava mais macio e agradável à caminhada. Fiquei surpreendido com a resposta (e o riso!) do meu primo "isso é porque provavelmente estamos em cima de fezes de morcego". Ri-me do que pensei ser mais uma das piadas dele, mas o meu riso rapidamente de perdeu quando apontei a lanterna para cima, para as paredes e tecto do túnel. Um arrepio percorreu-me a espinha e os cabelos eriçaram-se. Um cheiro de amoníaco e decomposição invadiu as minhas narinas. Ao perscrutar o chão com a lanterna apercebo-me que também o chão tinha morcegos e estava infectado de guano. Por um lado queria sair dali o mais depressa possível - o cheiro perfurava-nos os pulmões - mas por outro lado queria poder contemplar aqueles magníficos mamíferos durante mais algum tempo.

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As horas passavam, os quilómetros faziam-se, contavam-se túneis, e calculavam-se os que faltavam. Subitamente avistámos o último dos túneis - o túnel interminável. Interminável não apenas por ser o último, não apenas pelo cansaço, mas sim por ser o mais longo de todos - 1 quilómetro de túnel (que mais parecem 10!). Demorámos cerca de 30 minutos para o percorrer mas. meu deus, se pudessem ver as nossas caras quando voltámos a respirar o ar puro! Um misto de alegria e sofrimento. E os pés! As bolhas nos pés! A mochila que parecia pesar 60 quilos! Mas estávamos felizes, tão felizes.

rota dos tuneis

Não nos limitámos a percorrer quilómetros: percorremos memórias e uma aventura inesquecível.

Bruno Simões | 2014



Quilómetros
45

nº de Dias
2

Dificuldade
7/10

estilo de aventura
survival

Fim de semana de Sobrevivência